segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Rifa-se um coração (quase novo)


Rifa-se um coração quase novo… Um coração idealista. Um coração como poucos. Um coração à moda antiga. Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que, na realidade, está pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e cultivar ilusões. Um louco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu: “…não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso é que eu espero…”; Um idealista. Um verdadeiro sonhador…
Rifa-se um coração que nunca aprende. Que não endurece e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural. Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar. Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.Rifa-se este coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.Esse coração que erra, briga, se expõe. Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.Sai do sério e, às vezes, revê suas posições arrependido de palavras e gestos. Este coração tantas vezes incompreendido. Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo…
Rifa-se este desequilibrado emocional, que abre sorrisos tão largos que quase dá prá engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto. Um coração para ser alugado ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado, indicado apenas para quem quer viver intensamente e, contra-indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se de emoções.

Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário. Um coração que, quando parar de bater, ouvirá seu usuário dizer para São Pedro, na hora da prestação de contas: “O Senhor pode conferir, eu fiz tudo certo. Só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança, que insiste em não endurecer se recusa a envelhecer”.
Rifa-se um coração, ou até mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo. Um órgão fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconseqüente.Rifa-se um coração cego, surdo e mudo mas que incomoda um bocado. Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais. Por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree. Um simples coração humano. Um impulsivo membro, de comportamento, até meio ultrapassado. Um modelo cheio de defeitos que, certamente, os mais avançados não mais possuem. Uma verdadeira raridade que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que domina. Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e, a ter a petulância de se aventurar como poeta.

Clarice Lispector

3 comentários:

Elís disse...

Nossa esse texto da Clarisse nunca tinha lido!
Amoooo Clarisse Lispetor!

Tive a ousadia de postar em meu blog, claro que avisando que retirei do seu!
Adorei o teu blog!
Lindo e delicado como vc!

Xeiroooo!

Parabéns!



Elís.

Pétala disse...

linda flor Elís eu recebi este texto por email, fiquei na duvida se era mesmo da Clarisse Lispetor ou não, fui verigar e achei vários texto com o nome dela, como texto desconhecido e com nome de outros autores, como achei lindo e Adoro Clarisse Lispetor, postei como recebi

um xeiro com aroma de pitanga

DEXPEX_{Amar Yasmine} disse...

Linda Pétala!

Muito bom compartilhar textos como este, não importa a autoria.

Besos doces!


DEXPEX_{Amar Yasmine}